Depoimentos

            Era uma tarde ensolarada como tantas outras do verão de Rio das Ostras. Uma tarde das férias de janeiro, para ser mais exata. Nada de muito diferente de um dia de férias na vida de uma garotinha de nove ou dez anos, não fosse por um pequeno episódio que marcou para sempre a minha vida.

            Lembro-me de uma querida amiga da minha mãe conversando com ela sobre o novo funcionário do cartório em que trabalhava. Falava sobre como ele era estudioso, que conhecia a lei de cor e que tinha passado no último concurso em uma das primeiras classificações.

            Não sei dizer o porquê, mas alguma coisa no jeito que ela falava sobre aquele rapaz me cativou. Poderia ter cismado em ser cientista, professora, médica, qualquer coisa… mas naquele dia soube que queria ser uma servidora pública.

            Parte do sonho passava pela graduação em Direito na UERJ, o que foi conquistado, após muito esforço e dedicação. Outra parte do sonho envolvia a aprovação no tão sonhado concurso público, de preferência na área da advocacia pública, que desde logo me encantou.

            Logo após formada, comecei a prestar os primeiros concursos e tive êxito. Fui aprovada para a residência jurídica da PGE-RJ, para o cargo de advogada do Instituto Nacional do Câncer (INCA), para advogada do Instituto de Pesos e Medidas do Rio de Janeiro, para advogada da Cia. Docas do Rio de Janeiro e para a Procuradoria da UERJ.

            Tudo caminhava muito bem e, aparentemente, não demoraria muito até alcançar o almejado cargo de Procuradora do Estado ou do Município. Na verdade, contudo, não foi bem assim… Existe um provérbio judaico que diz que “os homens fazem seus planos e Deus ri deles”. Nada mais apropriado. Houve uma grande diferença entre o que eu tinha planejado na minha cabeça e como as coisas efetivamente aconteceram na minha vida.

            Tive uma trajetória diferente da de muitos concurseiros. Normalmente os candidatos demoram a ser aprovados no primeiro concurso, mas acabam sendo aprovados em vários em um curto espaço de tempo. Comigo foi um pouco diferente. Após ter sucesso em vários concursos, demorei muito tempo até ser aprovada em concursos maiores.

            Dentre outros concursos, fiquei reprovada na PGM-RJ, na primeira fase por poucos pontos. Também fui reprovada na segunda fase da PGE-SP, na segunda fase da PGE-GO, na segunda fase da PGE-PR e na segunda fase da PGM-Niterói. Recentemente, obtive a aprovação na PGM-Nova Iguaçu, mas infelizmente fora das cinco vagas previstas no edital do concurso.

            Após perder tantas vezes e por tão pouco, natural começar a duvidar de tudo. Achava que tinha alguma coisa errada comigo e que era diferente dos outros. Lembro-me de que após uma dessas derrotas, li uma coluna da Marta Medeiros em que ela narrava uma história que presenciou. Tratava-se de uma motorista que tentava, insistentemente, colocar seu grande carro utilitário em uma pequena vaga sem êxito. Ela falava de como era importante ter perseverança. Mas de que é necessário também reconhecer os seus limites e, as vezes, partir para outra, construir novos sonhos, enfim, desistir.

 

             Ficava me perguntando: será que sou essa mulher? Será que passar no concurso que eu quero é sonhar alto demais? Será que todo mundo já percebeu que eu nunca vou conseguir, menos eu?

            O tempo passou e após a última reprovação, na PGM-Niterói, resolvi relaxar, desacelerar um pouco nos estudos e curtir um pouco mais a vida. Foi quando surgiu a prova para Procurador da Fazenda Nacional (PFN).

            Fiz a prova sem grandes esperanças. Achava que se mesmo estudando tanto para a área estadual e municipal eu estava falhando, então, para a área federal, aí é que não teria chance alguma.

            No dia da prova objetiva era show do Rock in Rio e me lembrei de que em todas as outras edições não tinha conseguido ir porque sempre estava estudando. Pensei seriamente em faltar a prova. Mas, felizmente, alguns amigos iluminados me convenceram a fazer a prova e ir para o Rock in Rio depois. Saí da prova com a sensação de que poderia ter passado se tivesse estudado mais um pouco e me senti culpada.

           Saiu o resultado da prova objetiva e eu vi meu nome na lista dos aprovados. Fiquei feliz demais, mas também preocupada, afinal, já tinha ficado reprovada em várias segundas fases.

            Foi aí que conheci o EBEJI e graças a recomendação de alguns amigos contratei o simulado de peças e questões para a PFN. O curso foi essencial para que eu soubesse onde estava errando. Percebi que, as vezes, no afã de transmitir todo o meu conhecimento, a resposta ficava confusa e pouco objetiva. A correção individualizada das peças e questões por profissionais extremamente bem preparados, com certeza, foi um diferencial para mim. As aulas ministradas também foram muito relevantes para que eu chegasse mais segura para a prova e soubesse o que a banca examinadora espera de um bom candidato.

            Consegui corrigir minhas falhas e fui aprovada na prova discursiva. Quando vi meu nome no D.O. dei um grito tão alto que meu noivo, que estava dormindo, acordou pensando que tinha acontecido alguma coisa. Foi um grito de desespero, de felicidade… um grito que estava preso na minha garganta há muito tempo.

            Faltava agora a temida prova oral e precisava não apenas passar, mas também ganhar classificações, já que estava fora do número de vagas. Novamente, o EBEJI me ajudou bastante nesse delicado momento. Creio que foi muito relevante para ajudar a aprimorar meus pontos fortes e disfarçar meus defeitos. Agradeço muito o carinho e dedicação dos professores, sempre solícitos para me ajudar nas dúvidas não apenas relativas ao conhecimento jurídico, mas também relacionadas à postura que o candidato deve ter durante a prova oral.

            Felizmente obtive uma ótima nota na prova oral e, por enquanto, com base no resultado provisório, consegui subir quase oitenta classificações e posso respirar aliviada dentro do número de vagas.

            Sabe aquele papo de que só não passa em concurso público quem desiste? Pensei várias vezes que eu seria a exceção, que eu nunca passaria. Bem, sou a prova viva de que na hora certa as coisas acontecem! E para aquela garotinha sonhadora que em certa tarde de janeiro ficou com os olhos brilhando quando ouviu falar em um tal de concurso público, só tenho a falar uma coisa: TUDO VALEU A PENA! VOCÊ CONSEGUIU!

           

Karina Cohen Lima

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